Free time e armazenagem: os dois relógios da importação

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Corredores de contêineres empilhados vistos do alto ao amanhecer, com caminhão atravessando entre as pilhas

Todo contêiner de importação parado carrega dois relógios de custo ao mesmo tempo: o do armador, que cobra pelo equipamento quando o free time do BL termina (demurrage e detention); e o do terminal, que cobra armazenagem pela carga dentro do recinto — em geral um percentual do valor CIF por período, contado da descarga. São credores diferentes, bases de cálculo diferentes e datas de início diferentes. Pagar um não desliga o outro — e é exatamente por isso que a conta surpreende.

Dois credores, dois relógios

Free time → demurrage/detention Armazenagem
Quem cobra Armador Terminal / recinto alfandegado
Sobre o quê O equipamento (o contêiner) A carga (a mercadoria)
Base de cálculo US$/dia por contêiner, progressivo % do valor CIF por período, cumulativo
Relógio liga No fim do free time do BL Na descarga (na regra geral das tabelas públicas)
Relógio desliga Na devolução com EIR Na retirada da carga
Onde está a regra BL / Termo de Responsabilidade Tabela pública ou contrato com o terminal
Dois cartões lado a lado: o armador cobra pelo equipamento em dólar por dia depois do free time; o terminal cobra armazenagem como percentual do CIF por período desde a descarga
Dois relógios em paralelo: o do armador liga no fim do free time; o do terminal, na descarga

O mesmo quadro, em texto: o armador concede um prazo livre e depois cobra por dia, em dólar, pelo contêiner; o terminal cobra por período, como percentual do valor da carga, começando na descarga — na maioria das tabelas públicas, sem prazo livre nenhum. "Free time" é conceito do armador; não espere encontrá-lo na tabela do terminal.

Armazenagem: como o terminal cobra

Exemplo real e público: a tabela do Porto Itapoá cobra, na importação, 0,656% do valor CIF da mercadoria por período, com contagem a partir da data da descarga e períodos cumulativos até a retirada — mais adicional de 150% para carga IMO (perigosa) e para carga fora de padrão (OOG). Cada terminal publica a sua tabela, com percentuais, tamanhos de período e mínimos próprios; o mecanismo, porém, é o mesmo em quase todos.

O detalhe que muda o comportamento da conta: percentual sobre o CIF. O espaço ocupado é o mesmo, mas carga cara paga mais — um contêiner com R$ 1 milhão de mercadoria gera R$ 6.560 por período só de armazenagem nessa tabela. E como os períodos são cumulativos, o primeiro dia de um período novo custa o período inteiro: atrasar a retirada em um dia pode custar o mesmo que atrasá-la em dez.

Free time: como o armador concede

O free time é cláusula comercial do contrato de transporte — vem no BL ou no Termo de Responsabilidade, e a praxe de mercado gira em torno de 7 dias para contêiner dry e 5 para reefer, contados conforme o contrato. Três consequências práticas:

  1. É por contêiner/BL, não por navio. Dois contêineres do mesmo navio podem ter prazos diferentes.
  2. É negociável. Importador com volume regular negocia free time maior junto com o frete — e isso costuma custar menos que uma única fatura de sobre-estadia.
  3. Não afeta a armazenagem. Free time de 14 dias não impede o terminal de cobrar armazenagem desde a descarga.

Quando o free time estoura, entram o demurrage e o detention — os detalhes de contagem, valores e limites legais estão no artigo sobre demurrage e detention.

A conta dos dois relógios juntos

Exemplo ilustrativo com números redondos, usando a tabela pública citada: contêiner dry, carga CIF de R$ 500 mil, free time de 7 dias, retirado no 22º dia após a descarga.

  • Armazenagem (terminal): 0,656% × R$ 500.000 = R$ 3.280 por período; três períodos decorridos → R$ 9.840.
  • Demurrage (armador): 15 dias além do free time × US$ 150/dia → US$ 2.250, na casa de R$ 12 mil.
  • Total: ≈ R$ 22 mil em um único contêiner — sem avaria, sem multa, sem imprevisto: só o tempo passando em dois relógios.

Onde o dinheiro vaza na operação

O padrão que vemos desde 2012 desenvolvendo software para o setor: o custo raramente vem de tarifa desconhecida — vem de decisão tomada sem enxergar o relógio.

  1. A retirada é priorizada por ordem de chegada, não por custo. O contêiner de carga barata sai primeiro porque "chegou primeiro", enquanto o de CIF alto vira período.
  2. Canal vermelho e exigência fiscal param a carga, e ninguém recalcula. A decisão de aguardar ou agir tem um custo por dia — que ninguém apresenta a quem decide.
  3. Armazenagem entra como "despesa do despachante" e não volta para a operação como indicador; a fatura é paga sem batimento contra as datas reais de descarga e retirada.
  4. A virada de período é invisível. Um dia de atraso na véspera da virada custa um período inteiro — e o alerta não existe.

O controle mínimo que funciona

  1. Custo-relógio por contêiner: (CIF × % da tabela ÷ dias do período) + diária prevista de demurrage — um número por contêiner, por dia, visível para quem programa retirada.
  2. Fila de retirada ordenada por custo, não por ordem de chegada.
  3. Alerta de virada de período (D-1) e de fim de free time (D-2).
  4. Batimento das faturas — armazenagem contra data de descarga/retirada; demurrage contra os EIRs.

Perguntas frequentes

Armazenagem tem free time?

Em regra, não — nas tabelas públicas de importação a contagem começa na descarga. Alguns recintos e regimes especiais concedem dias livres; o que vale é a tabela ou o contrato do seu terminal, não a analogia com o free time do armador.

Por que a armazenagem é percentual do CIF e não uma diária fixa?

É a praxe dos recintos alfandegados brasileiros: o preço acompanha o valor da mercadoria sob guarda, não só o espaço. Consequência prática: carga cara não pode esperar.

Já paguei o demurrage. Por que ainda devo armazenagem?

Porque são credores e serviços distintos: o demurrage remunera o armador pelo equipamento; a armazenagem remunera o terminal pela guarda da carga. Um não quita o outro.

Dá para reduzir a armazenagem?

Retirando mais cedo (é o único desconto garantido), planejando a retirada antes da virada de período, e — para cargas que podem esperar — avaliando remoção em DTA para recinto de tarifa menor. A conta de qual caminho compensa é exatamente o custo-relógio por contêiner.


Free time e armazenagem não são o mesmo custo com nomes diferentes — são dois contratos, dois credores e dois relógios. Quem enxerga os dois por contêiner decide retirada com número na mão; quem não enxerga, descobre a diferença na fatura.